Câncer de Próstata Metastático: Avanços no Tratamento em 2026
- Dr. Bruno Benigno

- há 3 dias
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Receber o diagnóstico de câncer de próstata avançado é um momento de muita angústia. Mas a realidade do tratamento mudou radicalmente nos últimos anos — e em 2026 temos mais opções, mais precisão e mais motivos para ter esperança.
O Dr. Bruno Benigno, urologista oncologista especializado em cirurgia robótica (CRM SP 126265), junto com o Dr. Fábio Schutz, oncologista clínico com formação no Dana-Farber Cancer Institute/Harvard, analisam as principais conclusões do APCCC 2026 (Advanced Prostate Cancer Consensus Conference), o maior consenso mundial sobre câncer de próstata avançado, realizado em Lugano, Suíça. Neste artigo, traduzimos a ciência mais recente em orientações claras para quem enfrenta essa doença.
Por que só a injeção hormonal não basta mais?
Durante décadas, o tratamento do câncer de próstata metastático hormônio-sensível se resumia a uma única estratégia: a injeção que bloqueia a testosterona (conhecida como castração química). Medicamentos como goserelina (Zoladex), leuprorrelina e triptorelina eram prescritos isoladamente.
O APCCC 2026 deixou claro que esse cenário mudou definitivamente.
Hoje, o padrão mínimo de tratamento é a terapia combinada: a injeção hormonal associada a um medicamento oral chamado ARPI (inibidor da via do receptor androgênico).
Uma ampla revisão publicada na revista European Urology reuniu a evidência de múltiplos ensaios clínicos e concluiu que a combinação de ADT com um ARPI é agora considerada o tratamento padrão para o câncer de próstata metastático hormônio-sensível, com a terapia tripla (acrescentando docetaxel) indicada em subgrupos selecionados [1].
Na prática, isso significa que pacientes tratados apenas com injeção isolada estão recebendo menos do que a ciência atual recomenda — e precisam conversar com seu médico sobre a intensificação do tratamento.
Quais são os medicamentos orais disponíveis para o câncer de próstata avançado?
Os quatro ARPIs aprovados para uso em combinação com a terapia hormonal são: Apalutamida (reduziu o risco de morte em 33% e a progressão da doença em 58%), Enzalutamida (taxa de sobrevida global de 67% em 5 anos no estudo ENZAMET), Darolutamida (melhor perfil de tolerabilidade entre os ARPIs) e Abiraterona (o primeiro ARPI aprovado, com ampla experiência clínica).
Uma meta-análise em rede publicada no European Urology Open Science, analisando 11 ensaios clínicos com mais de 11.000 pacientes, mostrou que a terapia tripla com darolutamida apresentou a melhor sobrevida livre de progressão (HR 0,24) e sobrevida global (HR 0,54), com perfil de toxicidade favorável [2]. Para o paciente, essa informação é importante porque significa que existem opções com eficácia comprovada e efeitos colaterais manejáveis — e a escolha deve ser individualizada com o médico.
A decisão sobre qual ARPI utilizar depende de fatores como comorbidades do paciente, interações medicamentosas, volume de doença e acesso ao medicamento. No Brasil, o acesso pelo SUS ainda é limitado para alguns desses medicamentos, mas opções genéricas estão progressivamente chegando ao mercado.
O que é a "radioterapia líquida" com Lutécio-177 PSMA?
Uma das inovações mais comentadas no tratamento do câncer de próstata avançado é a terapia com Lutécio-177 PSMA, popularmente chamada de "radioterapia líquida". O medicamento é administrado na veia e viaja pela corrente sanguínea até encontrar as células tumorais que expressam a proteína PSMA na sua superfície. Ao se ligar a essas células, o Lutécio-177 libera radiação localizada, destruindo o tumor de dentro para fora.
Essa abordagem faz parte de um conceito chamado teranóstica: usar o PET-PSMA para "ver" onde está a doença e depois usar o mesmo alvo (PSMA) para "tratar". O Lutécio-177 PSMA (Pluvicto) foi aprovado pela Anvisa em dezembro de 2023 para pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração com expressão positiva de PSMA.
Um ensaio clínico fase 2 publicado no Journal of Nuclear Medicine em 2026 está investigando o retratamento com Lutécio-177 PSMA em pacientes que já responderam bem a um primeiro ciclo mas tiveram recaída — com resultados preliminares promissores que podem ampliar significativamente as opções terapêuticas [3]. Isso traz esperança real: mesmo pacientes que já usaram o Lutécio e tiveram boa resposta inicial podem se beneficiar de novos ciclos.
Testes genéticos e inibidores de PARP: para quem são indicados?
Nem todos os cânceres de próstata são iguais. Cerca de 15% dos pacientes com doença avançada possuem mutações em genes de reparo do DNA, como BRCA1, BRCA2 e ATM. Para esses pacientes, os inibidores de PARP — como o olaparibe — representam uma opção terapêutica poderosa.
O teste genético pode ser feito de duas formas: germinativo (pelo sangue ou saliva, identifica mutações hereditárias) e somático (pelo tecido tumoral, identifica mutações adquiridas pelo câncer). Ambos são importantes e complementares.
No APCCC 2026, houve consenso de que o teste genético deve ser oferecido a todos os pacientes com câncer de próstata metastático, pois as mutações encontradas orientam diretamente o tipo de tratamento — e podem beneficiar também familiares, especialmente mulheres da família (risco aumentado de câncer de mama e ovário).
Oligometástases e SBRT: quando tratar poucos focos de doença de forma focal?
Quando o câncer de próstata se espalha para poucos locais — geralmente até 5 lesões, chamadas oligometástases — existe a possibilidade de tratar cada foco individualmente com radioterapia de alta precisão, conhecida como SBRT (radioterapia estereotáxica corporal).
Um estudo do Journal of Nuclear Medicine avaliou a combinação de Lutécio-177 PSMA neoadjuvante seguido de SBRT em pacientes oligometastáticos hormônio-sensíveis (ensaio LUNAR), demonstrando que essa combinação prolongou significativamente a sobrevida livre de progressão em comparação com SBRT isolada [4].
Na linguagem do paciente: tratar os poucos focos de doença de forma direcionada, combinando radiofármaco e radioterapia focal, pode retardar consideravelmente a progressão da doença.
Qualidade de vida: cuidados além do câncer
O bloqueio hormonal prolongado, embora essencial para controlar a doença, traz efeitos colaterais que afetam a qualidade de vida: osteoporose, risco cardiovascular aumentado, fadiga, alterações cognitivas e impacto na saúde sexual.
O APCCC 2026 reforçou a importância de avaliação geriátrica (escala G8) para pacientes acima de 70 anos, exercício físico supervisionado como parte integral do tratamento, monitoramento ósseo com densitometria e suplementação de cálcio e vitamina D, avaliação cardiológica regular (especialmente com uso de abiraterona) e suporte nutricional e psicológico para manutenção da funcionalidade.
Acesso ao tratamento no Brasil: público vs. privado
Um tema central do consenso 2026 foi a discussão sobre acesso em diferentes contextos socioeconômicos. No Brasil, o SUS oferece a injeção hormonal e quimioterapia com docetaxel, mas o acesso aos ARPIs orais e ao Lutécio-177 ainda é restrito na rede pública.
Na rede privada e via convênios, as opções são mais amplas, com possibilidade de solicitar cobertura por meio de laudos médicos fundamentados em diretrizes. Ensaios clínicos representam uma via importante de acesso a tratamentos de ponta. Pergunte ao seu médico se existem protocolos de pesquisa disponíveis para o seu caso.
Próximos passos: o que fazer agora?
Se você ou alguém próximo enfrenta um diagnóstico de câncer de próstata avançado, três ações podem fazer toda a diferença: 1) Confirme que seu tratamento está atualizado — pergunte ao seu médico se você está recebendo terapia combinada (e não apenas injeção isolada). 2) Solicite testes genéticos — podem abrir portas para tratamentos personalizados. 3) Busque uma equipe multidisciplinar — o tratamento ideal envolve urologista, oncologista clínico, radioterapia e suporte de qualidade de vida.
Sobre o autor
Dr. Bruno Benigno é urologista oncologista com mais de 1.500 cirurgias robóticas realizadas em hospitais de excelência em São Paulo (Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz, Hospital Nove de Julho). CRM SP 126265 | RQE 60022. Especialista em câncer de próstata, rim e bexiga.
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Referências Bibliográficas
1. Azad AA, Kostos L, Agarwal N, et al. Combination Therapies in Locally Advanced and Metastatic Hormone-sensitive Prostate Cancer. European Urology. 2025;87(4):455-467. Acesse o estudo original
2. Melchior F, Koett M, Keller F, et al. Integration of Darolutamide in the Treatment Landscape for Metastatic Hormone-sensitive Prostate Cancer: A Systematic Review and Network Meta-analysis. European Urology Open Science. 2025;83:72-82. Acesse o estudo original
3. Nikitas J, Holzgreve A, Juarez J, et al. Phase 2 Prospective Trial of Retreatment with [Lu]Lu-PSMA-617 Molecular Radiotherapy for Metastatic Castration-Resistant Prostate Cancer — RE-LuPSMA. Journal of Nuclear Medicine. 2026;67(5):674-680. Acesse o estudo original
4. Ells Z, Meyer C, Kimura K, et al. Dosimetry Analysis of Lu-PSMA-I&T in Patients with Low-Volume Oligometastatic Hormone-Sensitive Prostate Cancer: A Secondary Analysis of the LUNAR Trial. Journal of Nuclear Medicine. 2026. Acesse o estudo original
Este conteúdo tem caráter educativo e é baseado em evidências científicas atuais e nas discussões do APCCC 2026 (Advanced Prostate Cancer Consensus Conference). Não substitui a avaliação médica individual. Consulte um especialista para orientação personalizada.



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