Câncer de próstata descoberto após RTU: preciso operar? O que a ciência diz sobre o Gleason 6 incidental
- Dr. Bruno Benigno

- 12 de mai.
- 5 min de leitura
Um homem de 68 anos chegou à Clínica Uro Onco com uma notícia inesperada: após uma cirurgia para tratar o aumento benigno da próstata, o exame do tecido revelou um câncer escondido. A pergunta que ele me fez é a mesma que assombra milhares de brasileiros todo ano — e a resposta, baseada nas evidências mais robustas da literatura médica, surpreende.
Era para ser uma cirurgia "comum". Acordava cinco a seis vezes por noite para urinar, jato fraco, dificuldade para esvaziar a bexiga. Em dezembro de 2025, foi submetido a uma ressecção transuretral da próstata (RTU) — o procedimento que "raspa" a parte interna da glândula para desobstruir a passagem da urina. Tudo correu bem. Até a análise do material removido chegar: adenocarcinoma de próstata, Gleason 6, presente em apenas 1% do tecido analisado.
Ele chegou ao meu consultório com a pergunta que mais escuto nesse cenário: "Doutor, eu preciso operar de novo? A raspagem espalhou o câncer? Posso só acompanhar?"
A resposta — sustentada por estudos publicados nas revistas mais influentes da medicina mundial — é mais tranquilizadora do que a maioria imagina.
O achado incidental: quando o câncer aparece "por acaso"
A RTU é um procedimento endoscópico, feito pela uretra, que remove tecido apenas da parte interna da próstata — o chamado adenoma. Acontece que apenas 10% dos cânceres de próstata nascem nessa região. Os outros 90% surgem na zona periférica, na cápsula externa — que não é tocada durante a RTU.
Por isso, quando o câncer aparece nessa análise, dizemos que ele é incidental: ninguém esperava encontrá-lo. Tecnicamente, classificamos o tumor como T1a (quando ocupa menos de 5% do material analisado) ou T1b (quando ocupa 5% ou mais). O paciente do nosso caso é T1a — o cenário de menor volume e melhor prognóstico.
A frequência desse achado varia conforme a população: cerca de 5% das RTUs no Brasil, 1,4% nos Estados Unidos (Otto e cols., 2014), 7% na Argentina e até 11% em uma série chinesa de 771 pacientes (2016). E, na imensa maioria das vezes, o tumor encontrado é de baixíssima agressividade.
Gleason 6 é "câncer"? A grande discussão da uro-oncologia moderna
O sistema Gleason gradua a agressividade do tumor de 2 a 10. Gleason 6 (Grade Group 1) é o menor da escala — células que crescem de forma extraordinariamente lenta, com risco mínimo de gerar metástases ou matar o paciente.
A discussão internacional é tão séria que pesquisadores propõem deixar de chamar o Gleason 6 de "câncer". Em pesquisa global com 1.303 médicos publicada na European Urology Focus em 2023, Saoud e colaboradores mostraram que 83% dos urologistas hoje recomendam vigilância ativa para Gleason 6, e quase 40% apoiam uma nova nomenclatura — substituindo "câncer" por termos como neoplasia de baixo potencial maligno (Saoud et al., 2023).
Por quê? Porque a evidência é esmagadora.
A prova científica mais recente: vigilância ativa é tão segura quanto operar
Três estudos mudaram a forma como tratamos o Gleason 6 incidental:
1. Estudo PROTECT — New England Journal of Medicine, 2023. Talvez o ensaio mais influente das últimas duas décadas. Hamdy e colaboradores acompanharam 1.643 homens por 15 anos, sorteados entre vigilância ativa, cirurgia radical e radioterapia. O resultado foi um divisor de águas: a mortalidade por câncer de próstata foi de apenas 2,7% — sem diferença estatisticamente significativa entre os três grupos (Hamdy et al., 2023).
2. Coorte UCSF — European Urology Oncology, 2025. Shee e colaboradores acompanharam 1.429 homens com Gleason 6 confirmado em vigilância ativa. Em 10 anos, a taxa de metástase foi de apenas 1,9% e a mortalidade pelo câncer foi de 0,1% (Shee et al., 2025).
3. Análise SEER — The Prostate, 2024. Di Bello e colaboradores analisaram 5.121 pacientes com câncer incidental e demonstraram que, nesse grupo, a mortalidade por outras causas (20% em 5 anos) supera muito a mortalidade pelo câncer (5%) — confirmando que o tratamento ativo agressivo é desnecessário para a maioria desses homens (Di Bello et al., 2024).
Em outras palavras: operar, irradiar ou apenas vigiar entrega resultados de sobrevivência praticamente idênticos — desde que o paciente seja bem selecionado e o protocolo de seguimento seja rigoroso.
Como ter certeza absoluta antes de "só acompanhar"?
Vigilância ativa não é "não fazer nada". É um protocolo rigoroso, ativo e tecnológico. No caso do nosso paciente, três passos foram essenciais:
Revisão de lâminas em laboratório independente, ultra-especializado em uro-oncologia, para confirmar o Gleason 6 e descartar erro de processamento.
PSA pós-RTU: caiu de 4 para 0,42 ng/mL — uma queda excelente, indicando que pouquíssimo tecido prostático produtor de PSA permaneceu.
Ressonância multiparamétrica: PI-RADS 2 — sem nódulos suspeitos na zona periférica.
A combinação PSA baixo + RM PI-RADS 2 + Gleason 6 em T1a torna o protocolo de vigilância ativa não apenas seguro, mas a melhor escolha médica. Estudo recente do Memorial Sloan Kettering Cancer Center (Leni et al., BJU International, 2025) mostra inclusive que a RM combinada à densidade do PSA permite reduzir o número de biópsias ao longo do seguimento de longo prazo.
E o mito de que a RTU ou a biópsia "espalham" o câncer?
Não espalham. O Gleason 6 não tem capacidade biológica de migrar, implantar e crescer fora da próstata. A técnica da RTU também não viola a cápsula prostática. O risco de metástase causada pelo procedimento é, na prática, zero.
O protocolo seguido por nosso paciente
PSA + ultrassom a cada 4 meses
Ressonância multiparamétrica anual
Nova biópsia programada para 12 meses após a primeira
Tomografia de tórax e cintilografia óssea, apenas se houver suspeita clínica
Acompanhamento por tempo indeterminado — potencialmente, por toda a vida
Esse é o padrão recomendado pelas principais diretrizes mundiais — AUA (American Urological Association), EAU (European Association of Urology) e NCCN (National Comprehensive Cancer Network) — para tumores de baixíssimo risco.
Você ou alguém próximo recebeu o diagnóstico de Gleason 6 após uma RTU?
A decisão entre operar, irradiar ou vigiar não pode ser tomada com base em medo. Ela exige revisão patológica especializada, ressonância multiparamétrica de alta qualidade, análise individualizada de PSA, comorbidades e expectativa de vida — e um time experiente em uro-oncologia para conduzir o protocolo de vigilância.
Na Clínica Uro Onco, em São Paulo, oferecemos exatamente esse cuidado. Somos referência em câncer de próstata, cirurgia robótica e vigilância ativa baseada nas evidências mais atuais. Atendemos presencialmente em Vila Mariana e por teleconsulta para pacientes de todo o Brasil.
Tomar a decisão certa, no momento certo, com o time certo, é o que define os próximos 20 anos da sua saúde.
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Referências bibliográficas
1. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-Year Outcomes after Monitoring, Surgery, or Radiotherapy for Prostate Cancer. N Engl J Med. 2023;388(17):1547-1558. DOI: 10.1056/NEJMoa2214122
2. Shee K, Song JJ, Cowan JE, et al. The Natural History of Confirmed Grade Group 1 Prostate Cancer Managed with Active Surveillance in the Modern Era. Eur Urol Oncol. 2025;8(4):1094-1100. DOI: 10.1016/j.euo.2025.06.005
3. Saoud R, Woranisarakul V, Paner GP, et al. Physician Perception of Grade Group 1 Prostate Cancer. Eur Urol Focus. 2023;9(6):966-973. DOI: 10.1016/j.euf.2023.04.002
4. Di Bello F, Baudo A, de Angelis M, et al. Other-cause mortality in incidental prostate cancer. Prostate. 2024;84(8):731-737. DOI: 10.1002/pros.24689
5. Preisser F, Cooperberg MR, Crook J, et al. Intermediate-risk Prostate Cancer: Stratification and Management. Eur Urol Oncol. 2020;3(3):270-280. DOI: 10.1016/j.euo.2020.03.002
6. Leni R, Tin AL, Liso N, et al. Magnetic resonance imaging for long-term active surveillance biopsy decision-making. BJU Int. 2025;136(3):500-506. DOI: 10.1111/bju.16798
Dr. Bruno Benigno — Urologista | CRM-SP 126265 | RQE 60022 | Especialista em Uro-Oncologia e Cirurgia Robótica



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