Resposta rápida: Ainda não existe uma "cura do câncer" única: cada tumor, em cada fase, tem respostas diferentes. Na ESMO 2026, os avanços mais sólidos foram a imunoterapia antes da retirada da bexiga para quem não pode receber quimioterapia, o pembrolizumabe após a cirurgia de câncer de rim de alto risco e um remédio-alvo para câncer de próstata metastático com perda do gene PTEN. Antes de acreditar em qualquer notícia, pergunte: o estudo é grande? O paciente viveu mais? O tratamento já está aprovado no Brasil?
Domingo, 23 horas, já no sofá: muitos pacientes digitam "cura do câncer" no Google e encontram de tudo, de notícias sérias a promessas milagrosas. Toda semana surge uma manchete sobre um "avanço contra o câncer", e fica difícil saber o que muda de verdade na vida de quem está em tratamento.
Neste artigo, o Dr. Bruno Benigno, urologista e uro-oncologista em São Paulo (CRM-SP 126265 | RQE 60022), traduz o que a ESMO 2026, o congresso europeu de oncologia realizado em Madrid, trouxe de mais importante para o câncer de próstata, o câncer de rim e o câncer de bexiga, com leitura crítica de cada estudo.
Atualizado em 27 de outubro de 2026 · Revisão médica: Dr. Bruno Benigno, urologista (CRM-SP 126265)
Pontos-chave deste artigo
- A ESMO é o congresso europeu de oncologia; seus estudos influenciam diretrizes no mundo todo, inclusive no Brasil.
- Notícia de congresso não significa remédio disponível: há aprovação da Anvisa e incorporação, que podem levar meses ou anos.
- No câncer de bexiga que invade o músculo, imunoterapia combinada com enfortumabe vedotina antes da cirurgia reduziu o risco de morte em quem não pode receber cisplatina.
- No câncer de rim de alto risco operado, o pembrolizumabe por 1 ano aumentou a chance de estar vivo em longo prazo.
- No câncer de próstata metastático com perda do gene PTEN, o capivasertibe somado à abiraterona aumentou a sobrevida mediana em cerca de 11 meses.
- Mais remédio nem sempre é melhor: todo ganho deve ser pesado contra os efeitos colaterais.
O que é a ESMO e por que um congresso na Europa importa para você?
A ESMO (European Society for Medical Oncology) é a sociedade europeia de oncologia, e seu congresso anual é um dos três mais importantes do mundo, ao lado do americano (ASCO) e, no Brasil, do congresso da SBOC. Em 2026, o evento aconteceu em Madrid, em outubro.
É nesses congressos que grandes estudos são apresentados pela primeira vez e analisados abertamente por médicos do mundo inteiro. É o que chamamos de revisão pelos pares: um resultado só ganha força quando outros grupos conseguem examinar os dados e, idealmente, reproduzi-los em outras populações, inclusive a brasileira.
Quais 3 perguntas fazer antes de acreditar em uma notícia sobre cura do câncer?
Toda notícia sobre tratamento de câncer deveria passar por três perguntas simples. Faça-as também ao seu médico.
- O estudo foi grande e feito em vários centros? Quanto maior a amostra e quanto mais hospitais e países participam, mais confiável é o resultado.
- O paciente viveu mais ou só um exame melhorou? Atrasar a volta da doença é bom, mas não é o mesmo que viver mais. Às vezes, só um número de exame melhora.
- O tratamento já está aprovado no Brasil para o meu caso? O que é apresentado na Europa pode demorar a chegar aqui, e às vezes o remédio existe, mas não está aprovado para aquela situação.
Na prática: desconfie de manchetes que prometem "cura" sem dizer para qual tipo de câncer, em qual fase e com qual ganho real de vida. Veja também como os remédios novos chegam à rede pública em Remédios contra câncer no SUS.
O que mudou no câncer de próstata de alto risco?
O estudo DASL-HiCaP avaliou homens com câncer de próstata de alto risco de metástase: a doença ainda não se espalhou, mas não está no início (doença localmente avançada). Nesses casos, quando se opta pela radioterapia, ela é feita junto com o bloqueio de testosterona por 2 a 4 anos. Os pesquisadores testaram somar a darolutamida, um comprimido já usado na doença metastática.
Em 4 anos, o risco de surgir metástase caiu cerca de 58%: sem a darolutamida, 12 em cada 100 homens tiveram metástase; com ela, 5 em cada 100. Em contrapartida, houve cerca de 15% a mais de efeitos colaterais, como ondas de calor, cansaço, ganho de peso e disfunção erétil, e ainda não se sabe se os pacientes vivem mais. O estudo foi apresentado na ESMO 2026 e a publicação completa ainda não estava indexada no PubMed no fechamento deste texto.
Na prática: é um resultado animador para casos muito agressivos (Gleason 9 ou 10, tumor que rompeu a cápsula ou atingiu gânglios) que vão para radioterapia, inclusive de resgate após a cirurgia. No Brasil, a darolutamida está disponível, mas ainda não aprovada para esse uso.
O que é o gene PTEN e por que ele importa no câncer de próstata metastático?
O PTEN é um gene que funciona como um "freio" do crescimento celular. Quando ele está desligado, a célula do câncer se multiplica mais rápido e sobrevive mais. Cerca de 10% a 15% dos homens com câncer de próstata metastático têm essa alteração, que pode ser identificada na própria biópsia.
No estudo CAPItello-281, publicado nos Annals of Oncology, cerca de 1.000 homens com câncer de próstata metastático sensível a hormônio e perda de PTEN receberam abiraterona com ou sem capivasertibe. Na análise atualizada, a sobrevida mediana foi de 57,4 meses com capivasertibe contra 46,5 meses sem ele [1]. Em termos simples: identificar a alteração genética do tumor permitiu escolher um remédio que acrescentou, em média, cerca de 11 meses de vida.
Na prática: se você tem câncer de próstata com metástase, converse com seu médico sobre o teste somático (no tecido do tumor) e o teste germinativo (no sangue ou na saliva). Saiba mais em Testes genéticos no câncer e em Câncer de próstata metastático: avanços em 2026.
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Agendar pelo WhatsApp Câncer de bexigaQuem não pode fazer quimioterapia antes de retirar a bexiga tem nova opção?
Sim. No câncer de bexiga que invade o músculo, o padrão costuma ser quimioterapia com cisplatina antes da cistectomia (retirada da bexiga). Mas muitos pacientes não podem receber cisplatina, por exemplo por função renal reduzida, e até pouco tempo iam direto para a cirurgia.
O estudo VOLGA, apresentado na ESMO 2026 e publicado no New England Journal of Medicine, mostrou que durvalumabe (imunoterapia) com enfortumabe vedotina antes e depois da cirurgia reduziu o risco de morte em 42% em comparação com a cirurgia isolada; em 2 anos, 78,4% estavam vivos contra 69,4% [2]. Um estudo anterior, o KEYNOTE-905, com pembrolizumabe e enfortumabe vedotina, já havia mostrado desaparecimento completo do tumor na peça cirúrgica em 57,1% dos pacientes, contra 8,6% com cirurgia isolada [3]. Na prática: para quem não pode receber cisplatina, essas combinações passam a ser o novo padrão antes da cistectomia.
| Estudo | Tratamento antes da cirurgia | Principal resultado |
| VOLGA (NEJM 2026) | Durvalumabe + enfortumabe vedotina | Risco de morte 42% menor; 78,4% vivos em 2 anos vs. 69,4% |
| KEYNOTE-905 (NEJM 2026) | Pembrolizumabe + enfortumabe vedotina | Tumor desapareceu em 57,1% vs. 8,6% |
| NIAGARA | Durvalumabe + quimioterapia (para quem pode receber cisplatina) | Reforça que a quimioterapia segue útil |
Mas mais remédio nem sempre é melhor: efeitos colaterais graves ocorreram em cerca de 7 em cada 10 pacientes nos grupos com as combinações, e alguns podem chegar mais frágeis à cirurgia. A quimioterapia não está "morta" para quem pode recebê-la. Leia também Câncer de bexiga: dá para preservar a bexiga?.
A imunoterapia ajuda depois da cirurgia de câncer de rim?
Em casos selecionados de alto risco, sim. Até 30% dos cânceres de rim agressivos podem voltar após a cirurgia. O estudo KEYNOTE-564 testou o pembrolizumabe por cerca de 1 ano depois da cirurgia e, na análise publicada no New England Journal of Medicine, reduziu o risco de morte em 38% [4].
Na atualização de longo prazo apresentada na ESMO 2026, com cerca de 7 anos de seguimento, 82% dos pacientes tratados estavam vivos contra 77% no grupo placebo, e 57% estavam vivos e sem câncer contra 45%. Em termos simples: para tumores de rim de alto risco, a imunoterapia após a cirurgia aumenta a chance de ficar livre da doença e de viver mais.
Por que a imunoterapia ainda não avançou no câncer de próstata? Porque ele é considerado um tumor "frio": se camufla do sistema imunológico, que não consegue reconhecê-lo bem.
Quiz: teste o que você aprendeu
Leia cada afirmação, pense se é verdade ou mito e toque nela para ver a resposta.
1. Se um remédio foi apresentado em um congresso, ele já está disponível na farmácia no dia seguinte. Verdade ou mito?
MITO. Antes de chegar ao paciente, o tratamento precisa de aprovação da Anvisa e, muitas vezes, de incorporação por planos e pelo SUS, o que pode levar meses ou anos.
2. A imunoterapia é sempre melhor e mais leve que a quimioterapia. Verdade ou mito?
MITO. A imunoterapia tem seus próprios efeitos colaterais e não funciona para todos os tumores, como o câncer de próstata, considerado um tumor "frio".
3. Após a cirurgia de um câncer de rim de alto risco, a imunoterapia pode ajudar a viver mais. Verdade ou mito?
VERDADE. No estudo KEYNOTE-564, o pembrolizumabe por cerca de 1 ano após a cirurgia reduziu o risco de morte em pacientes de alto risco.
4. Reduzir o risco de metástase é o mesmo que provar que o paciente vive mais. Verdade ou mito?
MITO. São desfechos diferentes. Na darolutamida com radioterapia, a metástase caiu, mas ainda não se sabe se a sobrevida aumenta.
5. No câncer de próstata metastático, um teste genético do tumor pode mudar o tratamento. Verdade ou mito?
VERDADE. Tumores com perda do gene PTEN se beneficiaram do capivasertibe somado à abiraterona no estudo CAPItello-281.
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Quais perguntas levar ao seu médico depois de ler uma notícia de congresso?
- Esse estudo vale para o meu tipo de câncer e para a fase da minha doença?
- O remédio já está aprovado no Brasil? Quanto tempo deve levar para chegar?
- O estudo mostra que o paciente vive mais ou só controla a doença por mais tempo, com mais efeitos colaterais?
- Existe algum exame, como o DNA do tumor circulante no sangue, que ajude a escolher o melhor tratamento no meu caso?
- Posso participar de algum estudo clínico em um centro de referência?
Na prática: estudo clínico não é ser "cobaia". Pesquisas em centros de referência seguem critérios rígidos, são transparentes e auditadas, e podem dar acesso a tratamentos ainda não disponíveis.
Quando procurar um urologista?
- Você recebeu diagnóstico de câncer de próstata, rim ou bexiga e quer entender se as novidades se aplicam ao seu caso.
- Seu PSA voltou a subir depois da cirurgia ou da radioterapia.
- Você tem câncer de bexiga que invade o músculo e foi informado de que não pode fazer quimioterapia com cisplatina.
- Você foi operado de um câncer de rim e quer saber se é de alto risco de recidiva.
- Você deseja uma segunda opinião antes de iniciar um tratamento.
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Perguntas frequentes
O câncer tem cura?
Depende do tipo de câncer e da fase em que é descoberto. Muitos cânceres de próstata, rim e bexiga diagnosticados no início têm altas chances de cura com cirurgia ou radioterapia. Na doença avançada, os novos tratamentos aumentam o tempo e a qualidade de vida, mas a palavra cura deve ser usada com cuidado e sempre no contexto de cada caso.
O que é a ESMO 2026?
É o congresso anual da European Society for Medical Oncology, a sociedade europeia de oncologia, realizado em Madrid em outubro de 2026. É um dos encontros mais importantes do mundo para apresentação de grandes estudos sobre câncer.
A darolutamida com radioterapia já pode ser usada no câncer de próstata de alto risco no Brasil?
A darolutamida já está disponível no Brasil para outras situações, mas, até o momento, não está aprovada especificamente para uso junto com a radioterapia no câncer de próstata localizado de alto risco. A indicação deve ser discutida individualmente com o urologista e o oncologista.
Quem não pode receber cisplatina tem tratamento antes da retirada da bexiga?
Sim. Os estudos VOLGA e KEYNOTE-905 mostraram que combinações de imunoterapia com enfortumabe vedotina antes e depois da cistectomia melhoram a sobrevida de pacientes que não podem receber cisplatina, em comparação com a cirurgia isolada.
O que é o teste do gene PTEN no câncer de próstata?
É uma análise feita no tecido do tumor, geralmente na própria biópsia, para verificar se o gene PTEN está desligado. Quando está, o câncer de próstata metastático pode se beneficiar do capivasertibe somado à abiraterona, segundo o estudo CAPItello-281.
Por que a imunoterapia ainda não funciona bem no câncer de próstata?
Porque o câncer de próstata é considerado um tumor frio: ele se esconde do sistema imunológico, que não consegue reconhecê-lo e atacá-lo com eficiência. Por isso, os avanços recentes da imunoterapia se concentram no câncer de rim e de bexiga.
Sobre o autor
Dr. Bruno Benigno é urologista e uro-oncologista, fundador da Clínica Uro Onco, com mais de 1.500 cirurgias robóticas realizadas em hospitais de excelência em São Paulo (Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês, Nove de Julho, Beneficência Portuguesa e Hospital Santa Catarina). Atua em câncer de próstata, rim e bexiga e em cirurgias minimamente invasivas. CRM-SP 126265 | RQE 60022.
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Referências bibliográficas
- Fizazi K, Clarke NW, De Santis M, et al. Capivasertib plus abiraterone in PTEN-deficient de novo metastatic hormone-sensitive prostate cancer: updated survival analysis from CAPItello-281. Ann Oncol. 2026. doi:10.1016/j.annonc.2026.10.097 Acesse o estudo original
- Powles T, Grande E, Simone G, et al. Durvalumab, Tremelimumab, and Enfortumab Vedotin in Muscle-Invasive Bladder Cancer. N Engl J Med. 2026. doi:10.1056/NEJMoa2608323 Acesse o estudo original
- Vulsteke C, Adra N, Danchaivijitr P, et al. Perioperative Enfortumab Vedotin and Pembrolizumab in Bladder Cancer. N Engl J Med. 2026;394(13):1257-1269. doi:10.1056/NEJMoa2511674 Acesse o estudo original
- Choueiri TK, Tomczak P, Park SH, et al. Overall Survival with Adjuvant Pembrolizumab in Renal-Cell Carcinoma. N Engl J Med. 2024;390(15):1359-1371. doi:10.1056/NEJMoa2312695 Acesse o estudo original
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